domingo, 1 de novembro de 2015

Era uma vez…

Há muito e muito tempo atrás, num lugar quente, seguro e aconchegador, junto da almofada, estava um menino (a) muito pequeno (a). Ouvia atentamente, todas as palavras que lhe eram ditas por alguém do qual este menino (a) amava muito. Estas palavras ecoavam como mágicas, fantásticas e cheias de encanto. Rapidamente o menino (a) caía num pensamento profundo do qual saía do seu mundo real e entrava no maravilhoso mundo do conto de fadas que lhe estava a ser lido.

Acredito que quando começou a ler o parágrafo acima, começou a recordar desses momentos antes de se deitar. Aqueles que, inevitavelmente, começavam por “era uma vez…”.  Simples palavras, mas sempre mágicas. Quando lidas e que se projetavam dentro da nossa mente, abria-se um portão que nos guiava até ao mundo do imaginário.
Cada frase, palavra e sílaba que se seguia, era como um guião dos nossos pensamentos. Simples pistas dos quais a nossa imaginação se guiava e se desenvolvia.
À medida que a história ia sendo lida, havia toda uma panóplia de argumentos, heróis e bandidos, paisagens, adereços e figurinos a surgir na nossa cabeça e à nossa maneira.
As princesas e príncipes, heróis e protagonistas mais “bondosos”, eram-nos familiares, tinham uma estrutura, uma maneira de ser e, até uma cara, semelhante a nós mesmos ou a alguém.
A ligação, a empatia e o vínculo a essa personagem criava-se rapidamente. Não só pelo desejo de ser como essa personagem, mas também pelo que ela suscita em nós; as suas “projeções” sobre nós. Era um sonho do antes de adormecer…
A verdade é que muitos de nós e dos nossos antepassados vivemos e sonhamos quase sempre com estes contos de fadas. Mas possivelmente nunca questionaram sobre a sua verdadeira importância. Se pensarmos bem, os contos de fadas são seculares e eram passados de geração em geração, sem o dito “quem conta um ponto acrescenta um pouco”, sem grandes modificações da essência da história. Mantendo sempre a ideia geral, o princípio, meio e fim da história. 
Mas os contos de fadas são importantes?
Esta criação magnífica, chamada de contos de fadas, permite um maior desenvolvimento cognitivo da criança, estimulando as suas capacidades imaginativas e fantasiosas -  a sua criatividade. Mas poderemos aprofundar ainda mais a questão. Se estivermos atentos, as histórias estão repletas de dicotomias; ganhos/perdas, solidão/encontros, bons/maus… permitindo que a criança se confronte com as exigências básicas do Homem, que existe polaridade e que esta seja facilmente compreendida.
As personagens raramente têm nome, e se têm, são nomes generalistas (Maria, João…) ou descrições pormenorizadas. São personagens simples, do qual são alguém, mas poderão ser qualquer um de nós. Permite a identificação e a projeção da criança à personagem. Todos são princesas e os heróis da história. Além da beleza e bondade, surge o pensamento de “eu também quero ser como ele (a)”.
Os contos de fadas são a forma mais subtil de preparação para as diferentes etapas do desenvolvimento. Como por exemplo na história dos 3 porquinhos a mãe porquinho diz para os 3 filhos: “ide meus filhos” e os porquinhos saíram de casa. Claro que não está a dizer à criança que terá que sair de casa no momento, mas que um dia mais tarde, terá que sair da casa dos progenitores, de deixar estar “debaixo das asas” destes e ser um ser independente.  
Todas as questões abordadas na história; as separações, solidões, lutas pelos objetivos, perdas, ganhos … e encontrar um outro alguém do qual “vamos viver, por muito tempo, felizes e contentes”.


Para terminar este post, deixo o apelo que nunca deixem de contar histórias/contos de fadas a uma criança, se ela tiver idade para escolher, deixa-a escolher. Ao pedido da criança para pedir a tal história, conte a história (mesmo que tenha contado vezes sem conta). Um conto de fadas não só permite que a criança se acalme e se encontre “consigo mesma” como permite o seu desenvolvimento.