Há muito e muito tempo atrás, num lugar quente, seguro e
aconchegador, junto da almofada, estava um menino (a) muito pequeno (a). Ouvia
atentamente, todas as palavras que lhe eram ditas por alguém do qual este
menino (a) amava muito. Estas palavras ecoavam como mágicas, fantásticas e
cheias de encanto. Rapidamente o menino (a) caía num pensamento profundo do
qual saía do seu mundo real e entrava no maravilhoso mundo do conto de fadas
que lhe estava a ser lido.
Acredito que quando começou a ler o parágrafo acima, começou
a recordar desses momentos antes de se deitar. Aqueles que, inevitavelmente, começavam
por “era uma vez…”. Simples palavras,
mas sempre mágicas. Quando lidas e que se projetavam dentro da nossa mente,
abria-se um portão que nos guiava até ao mundo do imaginário.
Cada frase, palavra e sílaba que se seguia, era como um
guião dos nossos pensamentos. Simples pistas dos quais a nossa imaginação se guiava
e se desenvolvia.
À medida que a história ia sendo lida, havia toda uma
panóplia de argumentos, heróis e bandidos, paisagens, adereços e figurinos a
surgir na nossa cabeça e à nossa maneira.
As princesas e príncipes, heróis e protagonistas mais
“bondosos”, eram-nos familiares, tinham uma estrutura, uma maneira de ser e,
até uma cara, semelhante a nós mesmos ou a alguém.
A ligação, a empatia e o vínculo a essa personagem criava-se
rapidamente. Não só pelo desejo de ser como essa personagem, mas também pelo
que ela suscita em nós; as suas “projeções” sobre nós. Era um sonho do antes de
adormecer…
A verdade é que muitos de nós e dos nossos antepassados
vivemos e sonhamos quase sempre com estes contos de fadas. Mas possivelmente
nunca questionaram sobre a sua verdadeira importância. Se pensarmos bem, os
contos de fadas são seculares e eram passados de geração em geração, sem o dito
“quem conta um ponto acrescenta um pouco”, sem grandes modificações da essência
da história. Mantendo sempre a ideia geral, o princípio, meio e fim da
história.
Mas os contos de fadas são importantes?
Esta criação magnífica, chamada de contos de fadas, permite
um maior desenvolvimento cognitivo da criança, estimulando as suas capacidades
imaginativas e fantasiosas - a sua
criatividade. Mas poderemos aprofundar ainda mais a questão. Se estivermos
atentos, as histórias estão repletas de dicotomias; ganhos/perdas,
solidão/encontros, bons/maus… permitindo que a criança se confronte com as
exigências básicas do Homem, que existe polaridade e que esta seja facilmente
compreendida.
As personagens raramente têm nome, e se têm, são nomes
generalistas (Maria, João…) ou descrições pormenorizadas. São personagens
simples, do qual são alguém, mas poderão ser qualquer um de nós. Permite a
identificação e a projeção da criança à personagem. Todos são princesas e os
heróis da história. Além da beleza e bondade, surge o pensamento de “eu também
quero ser como ele (a)”.
Os contos de fadas são a forma mais subtil
de preparação para as diferentes etapas do desenvolvimento. Como por exemplo na
história dos 3 porquinhos a mãe porquinho diz para os 3 filhos: “ide meus
filhos” e os porquinhos saíram de casa. Claro que não está a dizer à criança que
terá que sair de casa no momento, mas que um dia mais tarde, terá que sair da
casa dos progenitores, de deixar estar “debaixo das asas” destes e ser um ser
independente.
Todas as questões abordadas na história; as separações,
solidões, lutas pelos objetivos, perdas, ganhos … e encontrar um outro alguém
do qual “vamos viver, por muito tempo, felizes e contentes”.
Para terminar este post, deixo o apelo que nunca deixem de
contar histórias/contos de fadas a uma criança, se ela tiver idade para
escolher, deixa-a escolher. Ao pedido da criança para pedir a tal história,
conte a história (mesmo que tenha contado vezes sem conta). Um conto de fadas
não só permite que a criança se acalme e se encontre “consigo mesma” como
permite o seu desenvolvimento.