A propósito da comunicação
realizada no 11º Encontro Nacional da Psicologia da Saúde, realizado por mim e
por duas colegas minhas, achei pertinente referir este tema.
As fantasias e o desejo de
maternidade, começam muito antes da concepção propriamente dita. Normalmente, as
meninas, quando observam as suas mães como cuidadoras, tendem a imitá-las,
pegam ao colo o seu boneco, mudam a fralda ao boneco e brincam aos pais e às
mães, assim, uma mãe antes de se tornar mãe, aprende ao longo dos anos de vida,
um reportório de comportamentos maternos (Klaus & Kennell, 1992). Contudo,
geralmente, tudo começa com o desejo consciente/ inconsciente de engravidar. Há
uma ida ao médico ou um teste de gravidez positivo…uma confirmação da gravidez,
seja ela desejada ou não. A tarefa mais importante será então aceitar a
realidade da conceção, para que possa preparar-se e preparar o organismo e a
sua família para a chegada do novo ser, iniciando assim o processo de
maternidade apropriado. Neste período começam, então, a aparecer os primeiros
sentimentos ambivalentes, sentimentos que oscilam entre a alegria, júbilo,
receio e o medo. É nesta fase que nos futuros pais existe uma projecção da sua
própria infância e dos conflitos travados nesse período, fantasiando sobre os
pais perfeitos em que querem tornar-se. Ou então, dada a escassez de pistas sobre
o seu bebé, a mulher grávida poderá imaginar não só o seu bebé numa forma humana,
como também numa forma de um bebé socialmente caracterizado. Por outro lado, também poderá haver uma representação da mãe sobre si
mesma na sua nova função de maternidade, havendo deste modo dois tipos de
representações, uma representação de si e outra do objeto. Contudo,
progressivamente a gravidez vai existindo na “cabeça” da mãe, e um bebé
imaginário vai-se gerando ao longo de todo o processo gravídico.
Quando os sentimentos de
ambivalência em relação à sua gravidez forem ultrapassados, a mulher vive e
sente o “corpo que era estranho” como parte “integrante de si mesma” Klaus
& Kennell, 1992). Vive-se, assim, uma verdadeira simbiose. Assim, do ponto
de vista das fantasias, a mãe concebe o bebé como parte integrante de si e a
sua atenção é voltada para as transformações que ocorrem no seu corpo, embora
sejam transformações ténues. É neste momento que a grávida começa a desinvestir
mais no seu meio envolvente, ficando mais introspectiva, mais centrada em si
mesma, desviando a sua energia para o futuro bebé. A futura mãe, começa a
pensar uma futura criança, possivelmente com bochechas redondas e rosadas e um
caracol loiro sobre a cabeça. É de
realçar que todo o processo de imaginar o bebé é de extrema importância e
relevância, pois é o que fará com que o feto passa a criança e se insira no
mundo simbólico dos pais.
Com o segundo trimestre da
gravidez, esta é vivida como mais calma; os enjoos e vómitos já não persistem,
as ameaças de aborto estão ultrapassadas e a grávida começa a aceitar a
realidade. É durante este período que surgem os primeiros movimentos fetais dos
quais a mãe vai se vai apercebendo de que o bebé é um outro ser independente,
dando lugar à diferenciação entre o bebé e o Eu da mulher. São estes movimentos
que permitem à mãe fantasiar e imaginar o seu bebé. Surge, então, o bebé
imaginário. Através da interpretação dos movimentos fetais a mãe começa a
atribuir certas características pessoais ao feto. A mãe, antes das ecografias, tenta adivinhar
o sexo do seu bebé, vai interpretar os seus movimentos como características
individuais. Este processo torna-se mais rico, à medida que as transformações
corporais e biológicas maternas ocorrem. Ao mesmo tempo que se constrói este
bebé no imaginário da grávida, esta começa a acariciar o feto através da região
abdominal materna e a falar, ou até mesmo cantar, para o bebé, constituindo
assim uma forma de relação e de comunicação (Sousa, 2004), de uma relação com
“movimentos recíprocos”. A compra das primeiras roupas ou acessórios para o
bebé, permitem também aumentar as representações maternas, começa-se a ouvir
expressões como: “vai ficar tão bonito neste fato”; “ temos que começar a projectar
o quarto do bebé”…expressões muitas vezes usadas não só pelos futuros mais, mas
também pela família envolvente. Mas nem sempre esta representação é um “mar de
rosas”; fantasiar o seu bebé poderá trazer consigo sentimentos mais negativos,
como a ansiedade desencadeada pelo desconhecido, uma ansiedade que poderá vir
da fantasia de um feto malformado, ou o desejo de determinado género.
As ecografias tornam-se
frequentes neste período de tempo, e com o evoluir das tecnologias, este tipo
de exame torna-se cada vez mais sofisticado, sendo actualmente possível ver a
imagem do feto em 3D ou em 4D. Esta evolução remete-nos para uma questão
pertinente: Será que as ecografias poderão dissolver o bebé imaginado? Não haverá
assim uma “interrupção voluntária de fantasmas”, ou seja, este tipo de exame
poderia inibir o desenvolvimento de um bebé imaginário? Possivelmente as
ecografias não dissolvem o imaginário dos pais, mas que podem acelerar este processo,
pois propicia a evocação de imagens de memória e também imagens imaginárias dos
quais as mães conjugam estas novas informações e visualizações sobre o seu feto
para confirmar e/ou fantasiar o que já existia deste bebé imaginado. Além
disso, a visualização do seu bebé, contribui para um aumento de ligação ao feto.
O último trimestre da gravidez
corresponde à fase de separação. Nesta fase, as representações do bebé
imaginário atingiu o seu limite e ficaram delineadas na mente materna. Neste
período, a mãe investe numa personificação do bebé, para que quando ocorrer o parto,
este não seja totalmente estranho. Também deverá fazer uma individualização do seu
bebé, para que durante o parto a separação não seja sentida como uma perda de
uma parte de si. A mãe deverá fazer o luto de um bebé que imaginou e fantasiou
e aprender a aceitá-lo e amá-lo. Assim sendo, consiste em duas noções de separação.
Primeiramente, os pais, encaram o feto como um ser separado e real. Por outro
lado, começa-se a pensar na separação que vai ocorrer no momento do parto. Esta
separação, antes de ser uma separação biológica, deverá ser uma separação
psicológica, face à qual a mãe deve consciencializar-se que o feto é um ser
real e distinto dela; há então uma escassez ou anulação do processo
imaginativo; há uma adaptação do qual a mãe precisa estar mais concentrada – a preparação
para o parto.
Com o aproximar da hora do parto,
há um aumento da ansiedade e de um novo sentimento de ambivalência. Por um
lado, existe o desejo de ter nos braços o seu bebé, de o ver e de terminar a
gravidez. Contudo, por outro lado, aparecem novamente os medos, as fantasias,
sonhos (Cordeiro, 2009) à volta do feto e de perturbações que podem ocorrer durante
o trabalho de parto. Gibbins e Thomson (2000) verificaram que o maior receio das
mulheres durante o trabalho de parto eram as complicações relacionadas com a
saúde e bem-estar do seu bebé, ou que alguma anormalidade pudesse acontecer.
O processo gravídico culmina com
a aproximação do momento do parto. Durante todo este processo, a mãe teve que
se adaptar ao seu estado de gravidez, agora, deverá passar novamente por outro
processo de adaptação. Este período consistiu no fim da simbiose vivida pela
mãe até então, ou seja, “consiste na separação de dois organismos que até ao momento
viveram juntos numa relação de total dependência e de íntimo contacto permanente”
(Soifer, 1986, p.51).
Com o nascimento do bebé, a mãe
terá que abandonar a sua relação fantasmática privilegiada com o seu filho e as
suas fantasias de perfeição e de omnipotência fomentadas pela gravidez e,
assim, adaptar-se às características específicas do novo bebé. O bebé finalmente
nasceu, ele é limpo e examinado pelos médicos. Por fim, após todo um processo
doloroso e prolongado, a mãe terá o seu filho nos seus braços, deixa-se
fascinar por este novo ser, envolve-se com ele, e imaginar uma vida longa ao
lado dele.
Referências Bibliográficas:
Cordeiro, J. C. D. (2009).
Psicologia e psicodinamia da gravidez. In J. C. D. Cordeiro (Eds), Manual de
psiquiatria clínica (pp. 115-128). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Gibbins,J., & Tomson, A. (2001). Women's
expectations and experiences of childbirth. Midwifery, 17, 302- 313.
Kennell, J.H., & Klaus, M. (1984). Mother-infant bonding: weighing
the evidence. Development Review, 4, 275-282.
Klaus, M.H., & Kennell, J.H. (1992). A
família durante a gravidez. In M.H. Klaus & J.H. Kennell (Eds.), Pais/bebê: a formação do apego (pp.21-42).
Porto Alegre: Artes médicas.
Soifer, R. (1986). Ansiedades na
situação de parto. In R. Soifer (Eds) Psicologia da gravidez, parto e puerpério (pp.51-62). Porto
Alegre: Artes Médicas
Soulé, M. (1987). O filho da
cabeça, o filho imaginário. In
T. Brazelton, B. Cramer, L. Kleisler, R. Shappi & M. Soulé. A
dinâmica do bebé (pp. 132-167). Porto Alegre: Artes médicas.
Sousa, S. (2004). Estilos de
comunicação pais-bebé. Lisboa:
Climepsi.
